quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Aprendendo a conhecer com Jesus


Ninguém melhor para nos dar o exemplo de como conhecer as coisas do que Jesus. Ele nos mostrou o caminho seguro e efetivo do autoconhecimento e da prática do amor. Espírito Puro que era, fazia com que todos à sua volta despertassem para a reflexão e para a expressão dos sentimentos.

Certa vez, quando os discípulos de João Batista vieram ter com ele, disseram que João perguntara se ele era o “enviado de Deus” ou se o povo deveria esperar por outra pessoa. Jesus nos dá nesse instante o exemplo desse estímulo à reflexão. Ao invés de dizer que era o “enviado de Deus” disse:

— Ide anunciar a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o reino dos Céus (Lucas 7:22).

Esta passagem mostra claramente esta característica do Cristo. Ele estimulou seus interlocutores a observar a realidade e a refletir sobre o que estavam vendo. Ao trazer estas questões para reflexão, Jesus nos ensina a conhecer as coisas pelo método da análise, mostrando que a fé pode ter como base o raciocínio bem fundamentado.

Há grande diferença em ouvir de alguém um ensinamento e descobrir ensinamentos da fala de alguém. Jesus, nesta passagem, fez isso. Ao invés de dizer que ele era de fato quem eles esperavam, fez com que eles percebessem o que ele realizava, estimulando-os a tirar suas próprias conclusões.

Outro aspecto importante do relacionamento de Jesus com seus discípulos era o constante estímulo à experiência prática, através da qual podemos fortalecer e consolidar conceitos abstratos.

Jesus estimulava os apóstolos a ir ter com as multidões. Ele dizia a cada um que o desejo sincero de fazer o bem, o amor verdadeiro pelo próximo e a ação davam a eles a segurança de agir em nome de Deus.

— Ide em busca das ovelhas perdidas da casa de nosso pai que se encontram em aflição e voluntariamente desterradas de seu divino amor. Reuni convosco todos os que se encontram de coração angustiado e dizei-lhes, de minha parte, que é chegado o reino de Deus. Trabalhai em curar os enfermos, limpar os leprosos, ressuscitar os que estão mortos nas sombras do crime ou das desilusões ingratas do mundo, esclarecei todos os espíritos (…).

O que vos ensino em particular, difundi-o publicamente, porque o que agora escutais aos ouvidos será o objeto de vossas pregações de cima dos telhados.

Quando os apóstolos titubeavam no trabalho, duvidando de sua capacidade de realizá-lo, o Mestre fazia o papel do professor que transmite conhecimentos e ao mesmo tempo faz com que seus alunos reflitam e percebam as coisas que já conhecem.

Este é um exemplo de como Jesus trabalhava a partir das necessidades trazidas pelos apóstolos, utilizando-se muitas vezes dos elementos da Natureza e do cotidiano para facilitar a aprendizagem do grupo:

— Simão, que faz o pescador quando se dirige para o mercado com os frutos de cada dia?

O apóstolo pensou alguns momentos e respondeu hesitante:

— Mestre, naturalmente escolhe-se os peixes melhores. Ninguém compra os resíduos da pesca.

Jesus sorriu e perguntou de novo:

— E o oleiro? Que faz para atender à tarefa a que se propõe?

— Certamente, Senhor – redarguiu o pescador, intrigado – modela o barro, imprimindo-lhe a forma que deseja.

O Amigo Celeste, de olhar compassivo e fulgurante, insistiu:

— E como age o carpinteiro para alcançar o trabalho que pretende?

O interlocutor, muito simples, informou sem vacilar:

— Lavrará a madeira, usará a enxó e o serrote, o martelo e o formão. De outro modo, não aperfeiçoará a peça bruta.

Calou-se Jesus, por alguns instantes, e aduziu:

— Assim, também, é o lar diante do mundo. O berço doméstico é a primeira escola e o primeiro templo da alma. A casa do homem é a legítima exportadora de caracteres para a vida comum. Se o negociante seleciona a mercadoria, se o marceneiro não consegue fazer um barco sem afeiçoar a madeira aos seus propósitos, como esperar uma comunidade segura e tranquila sem que o lar se aperfeiçoe? A paz do mundo começa sob as telhas a que nos acolhemos. Se não aprendemos a viver em paz, entre quatro paredes, como aguardar a harmonia das nações? Se nos não habituamos a amar o irmão mais próximo, associado à nossa luta de cada dia, como respeitar o Eterno Pai que nos parece distante?

Jesus no Lar – Neio Lúcio



Nesta outra passagem, ele continua a discussão dos assuntos do cotidiano, estimulando a reflexão em um ambiente informal e colaborativo:

— Sara, qual é o serviço fundamental de tua casa?

— É a criação de cabras – redarguiu a interpelada, curiosa.

— Como procedes para conservar o leite inalterado e puro no benefício doméstico?

— Senhor, antes de qualquer providência, é imprescindível lavar cautelosamente o vaso em que ele será depositado. Se qualquer detrito ficar na ânfora, em breve todo o leite se toca de franco azedume e já não servirá para os serviços mais delicados.

Jesus sorriu e explanou:

— Assim é a revelação celeste no coração humano. Se não purificamos o vaso da alma, o conhecimento, não obstante superior, se confunde com as sujidades de nosso íntimo, como que se degenerando, reduzindo a proporção dos bens que poderíamos recolher. Em verdade, Moisés e os profetas foram valorosos portadores de mensagens divinas, mas os descendentes do povo escolhido não purificaram suficientemente o receptáculo vivo do espírito para recebê-las. É por isto que os nossos contemporâneos são justos e injustos, crentes e incrédulos, bons e maus ao mesmo tempo. O leite puro dos esclarecimentos elevados penetra o coração como alimento novo, mas aí se mistura com a ferrugem do egoísmo velho. Do serviço renovador da alma restará, então, o vinagre da incompreensão, adiando o trabalho efetivo do reino de Deus.

Jesus no Lar – Neio Lúcio



Estas eram oportunidades para os discípulos praticarem o que Jesus ensinava, de aprenderem, a partir da reflexão sobre a prática, e pelo prazer de servir, a alegria de serem úteis. O conhecimento se tornava então o que eles pensavam intelectualmente e sentiam emocionalmente.

Jesus, nosso modelo maior de educador, então, nos apresenta, pelo seu exemplo, diretrizes para a facilitação do conhecimento, balizas para o “Aprender a conhecer”:

Não apresentar respostas prontas: Jesus sempre estimulava a pessoa a refletir mais sobre qual era o problema que realmente incomodava, como quando propõe aos discípulos que reflitam sobre o sofrimento que devem vivenciar aqueles que agridem os homens que se esforçam para fazer o bem (Jesus no Lar, cap. 35). Além disso, o mestre não perdia a oportunidade de responder às indagações com novas perguntas, frequentemente desafiando o interlocutor à autorreflexão ou ao exame comparativo de situações com as quais estava acostumado a lidar;

Meditar antes de apresentar soluções: os evangelhos e as obras espíritas que descrevem as atitudes de Jesus são recorrentes em apresentar as pausas que Jesus fazia, ao apresentar um esclarecimento. Ainda que o mestre pudesse ter as respostas prontas, tomava um tempo, para deixar que os outros pudessem refletir, para criar prontidão e expectativa e também para escolher a melhor maneira de prestar o esclarecimento;

Estimular a reflexão sobre a vivência: são de exceção os relatos de Jesus introduzindo um tema para as discussões. A sua técnica de facilitador da aprendizagem era sempre trabalhar com os conteúdos trazidos pelos necessitados. E, ao abordar estes assuntos, Jesus sempre estimulava à reflexão sobre as vivências antes de apresentar qualquer resposta, o que não raro era sequer necessário;

Usar elementos e histórias que tenham a ver com o cotidiano do aprendiz:

O Nazareno nos demonstra que, para que possamos aprender, temos que usar elementos já conhecidos, buscar analogias com as nossas vivências;

Usar a experiência como a grande fonte de aprendizagem para a vida: Jesus sempre convocou todos a viver e ensinar as diretrizes para um mundo melhor;

Construção compartilhada do conhecimento: O Galileu nos dá o exemplo de que devemos usar as colaborações de todos para construir o conhecimento, num processo participativo, como fica evidente, por exemplo, no cap. 3 do livro Jesus no Lar;

Permissão do aporte de assuntos pessoais e emocionais: Ao invés de se centrar em um determinado tema, Jesus sempre instou aqueles que o rodeavam a trazer seus assuntos pessoais, e sempre foi muito atento aos relatos e às necessidades emocionais dos que conviviam com ele (veja-se exemplos nos cap. 5 e 6 do livro Jesus no Lar);

Jesus não dava instruções diretas: Apesar de permitir e mesmo estimular a expressão das particularidades da vivência de cada um, o mais das vezes Jesus apresentava diretrizes genéricas, para que os seguidores pudessem ter um norte, mas, ao mesmo tempo, habituarem-se a refletir a respeito da melhor maneira de se conduzirem pelo mundo.

E você? Como tem feito no seu grupo de estudos? Temos conseguido seguir os exemplos metodológicos de Jesus? Podemos intensificar o trabalho a partir destas diretrizes?

Temos feito a meditação sobre a tarefa que desempenhamos ao mesmo tempo em que estimulamos as reflexões dos participantes?

Prossigamos resolutos, na capacitação para o bom desempenho das tarefas que nos cabem na seara espírita.

Fonte: http://www.mundoespirita.com.br/?materia=aprendendo-a-conhecer-com-jesus

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Evangelho Segundo o Espiritismo: Cap. XXI – FALSOS CRISTOS E FALSOS PROFETAS/Missão dos Profetas


4 –Atribui-se geralmente aos profetas o dom de revelar o futuro, de maneira que as palavras profecia e predição se tornaram sinônimas. No sentido evangélico, a palavra profeta tem uma significação mais ampla, aplicando-se a todo enviado a Deus, com a missão de instruir os homens e de lhes revelar as coisas ocultas, os mistérios da vida espiritual. Um homem pode, portanto, ser profeta, sem fazer predições. Essa era a idéia dos judeus, no tempo de Jesus. Eis porque, ao ser levado perante o sumo sacerdote Caifás, os Escribas e os Anciãos,que estavam ali reunidos, lhe cuspiram no rosto e lhe deram socos e bofetadas, dizendo: “Cristo, profetiza, e dize quem foi que te bateu”. Houve profetas, entretanto, que tiveram a presciência do futuro, seja por intuição ou por revelação providencial, a fim de transmitirem advertências aos homens. Como essas predições se realizaram, o dom de predizer o futuro foi considerado como um dos atributos da qualidade de profeta.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Evangelho Segundo o Espiritismo: Cap. V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS/ Motivos de Resignação

12 – Pelas palavras: Bem-aventurados os aflitos, porque eles serão consolados, Jesus indica, ao mesmo tempo, a compensação que espera os que sofrem e a resignação que nos faz bendizer o sofrimento, como o prelúdio da cura.

Essas palavras podem, também, ser traduzidas assim: deveis considerar-vos felizes por sofrer, porque as vossas dores neste mundo são as dívidas de vossas faltas passadas, e essas dores, suportadas pacientemente na Terra, vos poupam séculos de sofrimento na vida futura. Deveis, portanto, estar felizes por Deus ter reduzido vossa dívida, permitindo-vos quitá-las no presente, o que vos assegura a tranqüilidade para o futuro.

O homem que sofre é semelhante a um devedor de grande soma, a quem o credor dissesse: “Se me pagares hoje mesmo a centésima parte, darei quitação do resto e ficarás livre; se não, vou perseguir-te até que pagues o último centavo”. O devedor não ficaria feliz de submeter-se a todas as privações, para se livrar da dívida, pagando somente a centésima parte da mesma? Em vez de queixar-se do credor, não lhe agradeceria?

É esse o sentido das palavras: “Bem-aventurados os aflitos, porque eles serão consolados”. Eles são felizes porque pagam suas dívidas, e porque, após a quitação, estarão livres. Mas se, ao procurar quitá-las de um lado, de outro se endividarem, nunca se tornarão livres. Ora, cada nova falta aumenta a dívida, pois não existe uma única falta, qualquer que seja, que não traga consigo a própria punição, necessária e inevitável. Se não for hoje, será amanhã; se não for nesta vida, será na outra. Entre essas faltas, devemos colocar em primeiro lugar a falta de submissão à vontade de Deus, de maneira que, se reclamamos das aflições, se não as aceitamos com resignação, como alguma coisa que merecemos, se acusamos a Deus de injusto, contraímos uma nova dívida, que nos faz perder os benefícios do sofrimento. Eis por que precisamos recomeçar, exatamente como se, a um credor que nos atormenta, enquanto pagamos as contas, vamos pedindo novos empréstimos.

Ao entrar no Mundo dos Espíritos, o homem é semelhante ao trabalhador que comparece no dia de pagamento. A uns, dirá o patrão: “Eis a paga do teu dia de trabalho”. A outros, aos felizes da Terra, aos que viveram na ociosidade, que puseram a sua felicidade na satisfação do amor próprio e dos prazeres mundanos, dirá: “Nada tendes a receber, porque já recebestes o vosso salário na Terra. Ide, e recomeçai a vossa tarefa”.

13 – O homem pode abrandar ou aumentar o amargor das suas provas, pela maneira de encarar a vida terrena. Maior é o eu sofrimento, quando o considera mais longo. Ora, aquele que se coloca no ponto de vista da vida espiritual, abrange na sua visão a vida corpórea, como um ponto no infinito, compreendendo a sua brevidade, sabendo que esse momento penoso passa bem depressa. A certeza de um futuro próximo e mais feliz o sustenta encoraja, e em vez de lamentar-se, ele agradece ao céu as dores que o fazem avançar. Para aquele que, ao contrário, só vê a vida corpórea, esta parece interminável, e a dor pesa sobre ele com todo o seu peso. O resultado da maneira espiritual de encarar a vida é a diminuição de importância das coisas mundanas, a moderação dos desejos humanos, fazendo o homem contentar-se com a sua posição, sem invejar a dos outros, e sentir menos os seus revezes e decepções. Ele adquire, assim, uma calma e uma resignação tão úteis à saúde do corpo como à da alma, enquanto com a inveja, o ciúme e a ambição, entregam-se voluntariamente à tortura, aumentando as misérias e as angústias de sua curta existência.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Perdoar


Sim, deves perdoar! Perdoar e esquecer a ofensa que te colheu de surpresa, quase dilacerando a tua paz. Afinal, o teu opositor não desejou ferir-te realmente, e, se o fez com essa intenção, perdoa ainda, perdoa-o com maior dose de compaixão e amor. 

Ele deve estar enfermo, credor, portanto, da misericórdia do perdão. 
Ante a tua aflição, talvez ele sorria. A insanidade se apresenta em face múltipla e uma delas é a impiedade, outra o sarcasmo, podendo revestir-se de aspectos muito diversos. 

Se ele agiu, cruciado pela ira, assacando as armas da calúnia e da agressão, foi vitimado por cilada infeliz da qual poderá sair desequilibrado ou comprometido organicamente. Possivelmente, não irá perceber esse problema, senão mais tarde. 

Quando te ofendeu deliberadamente, conduzindo o teu nome e o teu caráter ao descrédito, em verdade se desacreditou ele mesmo. 
Continuas o que és e não o que ele disse a teu respeito. 

Conquanto justifique manter a animosidade contra tua pessoa, evitando a reaproximação, alimenta miasmas que lhe fazem mal e se abebera da alienação com indisfarçável presunção. 

Perdoa, portanto, seja o que for e a quem for. 
O perdão beneficia aquele que perdoa, por propiciar-lhe paz espiritual, equilíbrio emocional e lucidez mental. 

Felizes são os que possuem a fortuna do perdão para a distender largamente, sem parcimônia. 
O perdoado é alguém em débito; o que perdoou é espírito em lucro. 

Se revidas o mal és igual ao ofensor; se perdoas, estás em melhor condição; mas se perdoas e amas aquele que te maltratou, avanças em marcha invejável pela rota do bem. 

Todo agressor sofre em si mesmo. É um espírito envenenado, espargindo o tóxico que o vitima. Não desças a ele senão para o ajudar. 

Há tanto tempo não experimentavas aflição ou problema - graças à fé clara e nobre que esflora em tua alma - que te desacostumaste ao convívio do sofrimento. Por isso, estás considerando em demasia o petardo com que te atingiram, valorizando a ferida que podes de imediato cicatrizar. 

Pelo que se passa contigo, medita e compreenderás o que ocorre com ele, o teu ofensor. 
O que te é Inusitado, nele é habitual. 
Se não te permitires a ira ou a rebeldia - perdoarás! 

A mão que, em afagando a tua, crava nela espinhos e urze que carrega, está ferida ou se ferirá simultaneamente. Não lhe retribuas a atitude, usando estiletes de violência para não aprofundares as lacerações. 
O regato singelo, que tem o curso impedido por calhaus e os não pode afastar, contorna-os ou para, a fim de ultrapassá-los e seguir adiante. 
A natureza violentada pela tormenta responde ao ultraje reverdescendo tudo e logo multiplicando flores e grãos. 
E o pântano infeliz, na sua desolação, quando se adorna de luar, parece receber o perdão da paisagem e a benéfica esperança da oportunidade de ser drenado brevemente, transformando-se em jardim. 

Que é o "Consolador", que hoje nos conforta e esclarece, conduzindo uma plêiade de Embaixadores dos Céus para a Terra, em missão de misericórdia e amor, senão o perdão de Deus aos nossos erros, por intercessão de Jesus?! 

Perdoa, sim, e intercede ao Senhor por aquele que te ofende, olvidando todo o mal que ele supõe ter-te feito ou que supões que ele te fez, e, se o conseguires, ama-o, assim mesmo como ele é. 

"Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes". Mateus: 18-22. 
"A misericórdia é o complemento da brandura, porquanto aquele que não for misericordioso não poderá ser brando e pacifico. Ela consiste no esquecimento e no perdão das ofensas". O Evangelho Segundo O Espiritismo, Cap. X - Item 4. 

Autor: Joanna de Ângelis
Psicografia de Divaldo Franco. Livro: Florações Evangélicas
Fonte: http://www.oespiritismo.com.br/mensagens/ver.php?id1=444

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Evangelho Segundo o Espiritismo: Cap. XX – TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA/ I – Os Últimos Serão Os Primeiros


CONSTANTINO
Espírito Protetor, Bordeaux, 1863


2 – O trabalhador da última hora tem direito ao salário.Mas, para isso, é necessário que se tenha conservado com boa-vontade à disposição do Senhor que o devia empregar, e que o atraso não seja fruto da sua preguiça ou da sua má vontade. Tem direito ao salário, porque, desde o alvorecer, esperava impacientemente aquele que, por fim, o chamaria ao labor. Era trabalhador, e apenas lhe faltava o que fazer.


Se tivesse, entretanto, recusado o trabalho a qualquer hora do dia; se tivesse dito: “Tenham paciência; gosto de descansar. Quando soar a última hora, pensarei no salário do dia. Que me importa esse patrão que não conheço e não estimo? Quanto mais tarde, melhor!” Nesse caso, meus amigos, não receberia o salário do trabalho, mas o da preguiça.


Que dizer, então, daquele que, em vez de simplesmente esperar, tivesse empregado as suas horas de trabalho para cometer estrepolias? Que tivesse blasfemado contra Deus, vertido o sangue de seus semelhantes, perturbado as famílias, arruinado homens de boa-fé, abusado da inocência? Que tivesse, enfim, se lançado a todas as ignomínias da humanidade? O que será dele? Será suficiente dizer, à última hora: “Senhor usei mal o meu tempo; empregai-me até o fim do dia, para que eu faça um pouco, um pouquinho que seja da minha tarefa, e pagai-me o salário do trabalhador de boa-vontade!”? Não, não! Porque o Senhor lhe dirá: “Não tenho agora nenhum trabalho para ti. Esperdiçaste o teu tempo, esqueceste o que havias aprendido, não sabes mais trabalhar na minha vinha. Cuida, pois, de aprender de novo, e quando te sentires mais bem disposto, vem procurar-me e te franquearei as minhas terras, onde poderás trabalhar a qualquer hora do dia”.


Bons espíritas, meus bem-amados, todos vós sois trabalhadores da última hora. Bem orgulhoso seria o que dissesse. “Comecei o trabalho de madrugada e só o terminarei ao escurecer”. Todos vieram quando chamados, uns mais cedo, outros mais tarde, para a encarnação cujos grilhões carregais. Mas há quantos e quantos séculos o Senhor vos chamava para a sua vinha, sem que aceitásseis o convite? Eis chegado, agora, o momento de receber o salário. Empregai bem esta hora que vos resta. Não vos esqueçais de que a vossa existência, por mais longa que vos pareça, não é mais do que um momento muito breve na imensidade dos tempos que constituem para vós a eternidade.


*


HENRI EINE
Paris, 1863


3 – Jesus amava a simplicidade dos símbolos. Na sua vigorosa expressão, os trabalhadores da primeira hora são os Profetas, Moisés, e todos os iniciadores que marcaram as diversas etapas do progresso, continuadas através dos séculos pelos Apóstolos, os Mártires, os Pais da Igreja, os Sábios, os Filósofos, e, por fim, os Espíritas. Estes, que vieram por último, foram entretanto anunciados e preditos desde o advento do Messias. Receberão, pois, a mesma recompensa. Que digo? Receberão uma recompensa maior. Últimos a chegar, os Espíritas aproveitam o trabalho intelectual dos seus antecessores, porque o homem deve herdar do homem, e porque os trabalhos e seus resultados são coletivos: Deus abençoa a solidariedade.


Muitos dos antigos revivem hoje, ou reviverão amanhã, para acabar a obra que haviam começado. Mais de um patriarca, mais de um profeta, mais de um discípulo do Cristo, e de um divulgador da fé cristã se encontram, entre vós. Ressurgem mais esclarecidos, mais adiantados, e já não trabalham mais nos fundamentos, mas na cúpula do edifício. Seu salário será, portanto, proporcional ao mérito da obra.


A reencarnação, esse belo dogma, eterniza e precisa a filiação espiritual. O Espírito, chamado a prestar contas do seu mandato terreno, compreende a continuidade da tarefa interrompida, mas sempre retomada. Vê e sente que apanhou no ar o pensamento de seus antecessores. Reinicia a luta, amadurecido pela experiência, para ainda mais avançar. E todos, trabalhadores da primeira e da última hora, de olhos bem abertos sobre a profundidade da Justiça de Deus, não mais se queixam, mas se põem a adorá-lo.


Este é um dos verdadeiros sentidos dessa parábola, que encerra, como todas as que Jesus dirigiu ao povo, as linhas do futuro, e também, através de suas formas e imagens, a revelação dessa magnífica unidade que harmoniza todas as coisas no universo, dessa solidariedade que liga todos os seres atuais ao passado e ao futuro.