terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O Homem Integral: TERCEIRA PARTE - A BUSCA DA REALIDADE/12 Consciência ética 


O homem é o único “animal ético” que existe. Não obstante, um exame da sociedade, nas suas variadas épocas, devido à agressividade bélica, à indiferença pela vida, à barbárie de que dá mostras em inúmeras ocasiões, nos demonstre o contrário. Somente ele pode apresentar uma “consciência criativa”, pensar em termos de abstrações como a beleza, a bondade, a esperança, e cultivar ideais de enobrecimento. Essa consciência ética nele existe em potencial, aguardando que seja desenvolvida mediante e após o auto-descobrimento, a aquisição de valores que lhe proporcionem o senso de liberdade para eleger as experiências que lhe cabem vivenciar. 

Atavicamente receoso, experimenta conflitos que o atormentam, dificultando­-lhe discernir entre o certo e o errado, o bem e o mal, o bom e o pernicioso. Ainda dominado pelo egocentrismo da infância, de que não se libertou, pensa que o mundo existe para que ele o desfrute, e as pessoas a fim de que o sirvam, disputando e tomando, à força, o que supõe pertencer-­lhe por direito ancestral. 

Diversos caminhos, porém, deverá ele percorrer para que a autoconsciência lhe descortine as aquisições ética indispensáveis: a afirmação de si mesmo, a introspecção, o amadurecimento psicológico e a autovalorização entre outros... 

O “negar-­se a si mesmo” do Evangelho, que faculta a personalidades patológicas o mergulho no abandono do corpo e da vida, em reação cruel, destituído de objetivo libertador, aqui aparece como mecanismo de fuga da realidade, medo de enfrentar a sociedade e de lutar para conseguir o seu “lugar ao Sol”, como membro atuante e útil da humanidade, que necessita crescer graças à sua ajuda. Este conceito cristão mantém as suas raízes na necessidade de “negar­se” ao ego prepotente e dominador, a vassalagem do próximo, em favor das suas paixões, a fim de seguir o Cristo, aqui significando a verdade que liberta. 

O desprezo a si mesmo, literalmente considerado, constitui reação de ódio e ressentimento pela vida e pela humanidade, mortificando o corpo ante a impossibilidade de flagiciar a sociedade. 

O homem que se afirma pela ação bem direcionada, conquista resistência para perseverar na busca das metas que estabelece, amadurecendo a consciência ética de responsabilidade e dever, o que o credencia a logros mais audaciosos. 

Ele rompe as algemas da timidez, saindo do calabouço da preocupação, às vezes, patológica, de parecer bem, de ser tido como pessoa realizada ou de viver fugindo do contato social. Ou, pelo contrário, canaliza a agressividade, a impetuosidade de que se vê possuído para superar os impulsos ansiosos, aprendendo a conviver com o equilíbrio e em grupo, no qual há respeito entre os seus membros, sem dominadores nem dominados. 

Consegue o senso de planejamento das suas ações, criando um ritmo de trabalho que o não exaure no excesso, nem o amolenta na ociosidade, participando do esforço geral para o seu e o progresso da comunidade. Adquire um conceito lógico de tempo e oportunidade para a realização dos seus empreendimentos, confiando com tranqüilidade no resultado dos esforços dispendidos. 

Mediante a autoconsciência, aplica de maneira salutar as experiências passadas, sem saudosismo, sem ressentimentos, planejando as novas com um bem delineado programa que resulta do processamento dos dados já vividos e adicionados às expectativas em pauta a viver. 

Por sua vez, o fenômeno da autoconsciência consiste no conhecimento lógico do que fazer e como executá­lo, sem conceder­-lhe demasiada importância, que se transforme numa obsessão, pela minudência de detalhes e face ao excesso de cuidados, correndo o risco do lamentável perfeccionismo. Ele resulta de uma forma de dilatação do que se sabe, de uma consciência vigilante e lúcida do que se realiza, expandindo a vida e, como efeito, graças ao dinamismo adquirido, sentir­-se liberado de tensões, fora de conflitos. Esta conquista de si mesmo enseja maior soma de realizações, mais amplo campo de criatividade, mais espontaneidade. 

A introspecção ajuda-­o, por ser o processo de conduzir a atenção para dentro, para a análise das possibilidades íntimas, para a reflexão do conteúdo emocional e a meditação que lhe desenvolva as forças latentes. Desse modo, não pode afastar o homem para lugares especiais, ou favorecer comportamentos exóticos, desligando-­se do mundo objetivo e caindo em alienação. 

Vivendo-­se no mundo, torna-­se inevitável vencer-­lhe os impositivos negativos, tempestuosos das pressões esmagadoras. Diante dos seus desafios, enfrentá-­los com natural disposição de luta, não alterando o comportamento, nem o deixando estiolar-­se. 

E muito comum a atitude apressada de viver-­se emocionalmente acontecimentos futuros que certamente não se darão, ou que ocorrerão de forma diversa da que a ansiedade estabelece. As impressões do futuro, como conseqüência de tal conduta, antecipam­-se, afligindo, sem que o indivíduo viva as realidades do presente, confortadoras. 

Para esta conduta ansiosa Jesus recomendava que “a cada dia baste a sua aflição”, favorecendo o ser com o equilíbrio para manter­-se diante de cada hora e fruí-­la conforme se apresente. 

A introspecção cria o clima de segurança emocional para a realização de cada ação de uma vez e a vivência de cada minuto no seu tempo próprio. Ajuda a manter a calma e a valorizar a sucessão das horas. O homem introspectivo, todavia, não se identifica pela carranca, pela severidade do olhar, pela distância da realidade, tampouco pela falsa superioridade em relação às outras pessoas. 

Tais posturas são formalistas, que denunciam preocupação com o exterior sem contribuição íntimo-­transformadora. Antes, surge com peculiar luminosidade na face e no olhar, comedido ou atuando conforme o momento, porem sem perturbar­-se ou perturbar, transmitindo serenidade, confiança e vigor. A introspecção torna-­se um ato saudável, não um vício ou evasão da realidade.

À medida que o homem se penetra, mais amadurece psicologicamente, saindo da proteção fictícia em que se esconde — dependência da mãe, da infância, do medo, da ansiedade, do ódio e do ressentimento, da solidão — para assumir a sua identidade, a sua humanidade. 

As ações humanistas são o passo que desvela a consciência ética no indivíduo que já não se contenta com a experiência do prazer pessoal, egoísta, dando-­se conta das necessidades que lhe vigem em volta, aguardando a sua contribuição. 

Nesse sentido, a sua humanidade se dilata, por perceber que a felicidade é um estado de bem-­estar que se irradia, alcançando outros indivíduos ao invés de recolher­-se em detrimento do próximo. Qual uma luz, expande-­se em todas as direções, sem perder a plenitude do centro de onde se agiganta. Amplia­-se-­lhe, desta forma, o senso da responsabilidade pela vida em todas as suas expressões, tornando-o um ser humano ético, que é agente do progresso, das edificações beneficentes e culturais. 

A perseguição da inveja não o perturba, tampouco a bajulação da indignidade o sensibiliza. 

Paira nele uma compreensão dos reais valores, que o propele a avançar sem timidez, sem pressa, sem temor. A sua se transforma em uma existência útil para o meio social, tornando-­se parte ativa da comunidade que passa a servir, sem autoritarismo nem prejuízo emocional para si mesmo ou para o grupo. 

A consciência ética é a conquista da iluminação, da lucidez intelecto-­moral, do dever solidário e humano. Ela proporciona uma criatividade construtiva ilimitada, que conduz à santificação, na fé e na religião; ao heroísmo, na luta cotidiana e nas batalhas profissionais; ao apogeu, na arte, na ciência, na filosofia, pelo empenho que enseja em favor de uma plena identificação com o ideal esposado. 

São Vicente de Paulo, Nietzsche, Allan Kardec, Freud, Schweitzer, Cézanne são exemplos diversos de homens que adquiriram um estado de consciência ética aplicada em favor da humanidade.

<http://www.luzespirita.org.br/leitura/pdf/l49.pdf>

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O Evangelho Segundo o Espiritismo: Capítulo V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS/O Suicídio e a Loucura


14 – A calma e a resignação adquiridas na maneira de encarar a vida terrena, e a fé no futuro, dão ao Espírito uma serenidade que é o melhor preservativo da loucura e do suicídio. Com efeito, a maior parte dos casos de loucura são provocados pelas vicissitudes que o homem não tem forças de suportar. Se, portanto, graças à maneira por que o Espiritismo o faz encarar as coisas mundanas, ele recebe com indiferença, e até mesmo com alegria, os revezes e as decepções que em outras circunstâncias o levariam ao desespero, é evidente que essa força, que o eleva acima dos acontecimentos, preserva a sua razão dos abalos que o poderiam perturbar.

15 – O mesmo se dá com o suicídio. Se excetuarmos os que se verificam por força da embriaguez e da loucura, e que podemos chamar de inconscientes, é certo que, sejam quais forem os motivos particulares, a causa geral é sempre o descontentamento. Ora, aquele que está certo de ser infeliz apenas um dia, e de se encontrar melhor nos dias seguintes, facilmente adquire paciência. Ele só se desespera se não ver um termo para os seus sofrimentos. E o que é a vida humana, em relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas aquele que não crê na eternidade, que pensa tudo acabar com a vida, que se deixa abater pelo desgosto e o infortúnio, só vê na morte o fim dos seus pesares. Nada esperando, acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar as suas misérias pelo suicídio.

16 – A incredulidade, a simples dúvida quanto ao futuro, as idéias materialistas, em uma palavra, são os maiores incentivadores do suicídio: elas produzem a frouxidão moral. Quando vemos, pois, homens de ciência, que se apóiam na autoridade do seu saber, esforçarem-se para provar aos seus ouvintes ou aos seus leitores, que eles nada têm a esperar depois da morte, não o vemos tentando convencê-los de que, se são infelizes, o melhor que podem fazer é matar-se? Que poderiam dizer para afastá-los dessa idéia? Que compensação poderão oferecer-lhes? Que esperanças poderão propor-lhes? Nada além do nada! De onde é forçoso concluir que, se o nada é o único remédio heróico, a única perspectiva possível, mais vale atirar-se logo a ele, do que deixar para mais tarde, aumentando assim o sofrimento.

A propagação das idéias materialistas é, portanto, o veneno que inocula em muitos a idéia do suicídio, e os que se fazem seus apóstolos assumem uma terrível responsabilidade. Com o Espiritismo, a dúvida não sendo mais permitida, modifica-se a visão da vida. O crente sabe que a vida se prolonga indefinidamente para além do túmulo, mas em condições inteiramente novas. Daí a paciência e a resignação, que muito naturalmente afastam a idéia do suicídio. Daí, numa palavra, a coragem moral.

17 – O Espiritismo tem ainda, a esse respeito, outro resultado igualmente positivo, e talvez mais decisivo. Ele nos mostra os próprios suicidas revelando a sua situação infeliz, e prova que ninguém pode violar impunemente a lei de Deus, que proíbe ao homem abreviar a sua vida. Entre os suicidas, o sofrimento temporário, em lugar do eterno, nem por isso é menos terrível, e sua natureza dá o que pensar a quem quer que seja tentado a deixar este mundo antes da ordem de Deus. O espírita tem, portanto, para opor à idéia do suicídio, muitas razões: a certeza de uma vida futura, na qual ele sabe que será tanto mais feliz quanto mais infeliz e mais resignado tiver sido na Terra; a certeza de que, abreviando sua vida, chega a um resultado inteiramente contrário ao que esperava; que foge de um mal para cair noutro ainda pior, mais demorado e mais terrível; que se engana ao pensar que, ao se matar, irá mais depressa para o céu; que o suicídio é um obstáculo à reunião, no outro mundo, com as pessoas de sua afeição, que lá espera encontrar. De tudo isso resulta que o suicídio, só lhe oferecendo decepções, é contrário aos seus próprios interesses. Por isso, o número de suicídios que o Espiritismo impede é considerável, e podemos concluir que, quando todos forem espíritas, não haverá mais suicídios conscientes. Comparando, pois, os resultados das doutrinas materialistas e espírita, sob o ponto de vista do suicídio, vemos que a lógica de uma conduz a ele, enquanto a lógica de outra o evita, o que é confirmado pela experiência.

Para ouvir "O Suicídio e a Loucura" clique no link a seguir: http://luzdoespiritismo.com/wp-content/uploads/2013/06/cap05-a06-o-suicidio-e-a-loucura.mp3

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O Evangelho Segundo o Espiritismo: Capítulo XXV – BUSCAI E ACHAREIS/Olhai as Aves do Céu


6 – Não queirais entesourar para vós tesouros na Terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e onde os ladrões os desenterram e roubam. Mas entesourai para vós tesouros no céu, onde não os consomem a ferrugem nem a traça, e onde os ladrões não o desenterram nem roubam. Porque onde está o tesouro, aí está também o teu coração.

Portanto vos digo: Não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis, nem para o vosso corpo, que vestireis. Não é mais a alma do que a comida, e o corpo mais do que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem segam, nem fazem provimentos nos celeiros; e, contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Porventura não sois muito mais do que elas? E qual de vós, discorrendo, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E por que andais vós solícitos pelo vestido? Considerai como crescem os lírios do campo; eles não trabalham nem fiam; digo-vos mais, que nem Salomão, em toda a sua glória, se cobriu jamais como um destes. Pois se ao feno do campo, que hoje é e amanhã é lançado no forno. Deus veste assim, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos cobriremos? Porque os gentios é que se cansam por estas coisas. Porquanto vosso Pai sabe que tendes necessidade de todas elas. Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas se vos acrescentarão. E assim não andeis inquietos pelo dia de amanhã. Porque o dia de amanhã a si mesmo trará seu cuidado; ao dia basta a sua própria aflição. (Mateus, 19-21, 25-34).

7 – Se tomássemos estas palavras ao pé da letra, elas seriam a negação de toda a previdência e de todo o trabalho, e conseqüentemente, de todo o progresso. Segundo esse princípio, o homem se reduziria a um expectador passivo. Suas forças físicas e intelectuais não seriam postas em atividade. Se essa tivesse sido a sua condição normal na Terra, ele jamais sairia do estado primitivo, e se adotasse agora esse princípio, não teria mais nada a fazer. É evidente que não poderia ter sido esse o pensamento de Jesus, porque estaria em contradição com o que ele já dissera em outras ocasiões, como no tocante às leis da natureza. Deus criou o homem sem roupas e sem casa, mas deu-lhe a inteligência para produzi-las.(Ver cap. XIV, nº 6 e cap. XXV, nº 2).

Não se pode ver nestas palavras, portanto, mais do que uma alegoria poética da Providência, que jamais abandona os que nela confiam, mas com a condição de que também se esforcem. É assim que, se nem sempre os socorre com ajuda material, inspira-lhes os meios de saírem por si mesmos de suas dificuldades. (Ver cap. XXVII, nº 8)

Deus conhece as nossas necessidades, e a elas provê, conforme for necessário. Mas o homem, insaciável nos seus desejos, nem sempre contenta-se com o que tem. O necessário não lhe basta, ele quer também o supérfluo. É então que a Providência o entrega a si mesmo. Freqüentemente ele se torna infeliz por sua própria culpa, e por não haver atendido as advertências da voz da consciência, e Deus o deixa sofrer as conseqüências, para que isso lhe sirva de lição no futuro. (Ver cap. V, nº 4).

8 – A Terra produz o suficiente para alimentar a todos os seus habitantes, quando os homens souberem administrar a sua produção, segundo as leis de justiça, caridade e amor ao próximo. Quando a fraternidade reinar entre os povos, como entre as províncias de um mesmo império, o que sobrar para um determinado momento, suprirá a insuficiência momentânea de outro, e todos terão o necessário. O rico, então, considerará a si mesmo como um homem que possui grandes depósitos de sementes: se as distribuir, elas produzirão ao cêntuplo, para ele e para os outros; mas, se as comer sozinho, se as desperdiçar e deixar que se perca o excedente do que comeu, elas nada produzirão, e todos ficarão em necessidade. Se as fechar no seu celeiro, os insetos as devorarão. Eis por que Jesus ensinou: Não amontoeis tesouros na Terra, pois são perecíveis, mas amontoai-os no céu, onde são eternos. Em outras palavras: não deis mais importância aos bens materiais do que aos espirituais, e aprendei a sacrificar os primeiros em favor dos segundos. (Ver cap. XVI, nº 7 e segs.).

Não é através de leis que se decretam a caridade e a fraternidade. Se elas não estiverem no coração, o egoísmo as asfixiará sempre. Fazê-las ali penetrar, é a tarefa do Espiritismo.

Para ouvir "Olhai as Aves do Céu": http://luzdoespiritismo.com/wp-content/uploads/2013/08/CAP25-A02.-Olhai-as-Aves-do-C%C3%A9u.mp3

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O Homem Integral: TERCEIRA PARTE - A BUSCA DA REALIDADE/11. Autodescobrimento 

O  esforço  para  a  aquisição  da  experiência  da  própria  identidade  humanizada leva o indivíduo ao processo  valioso do auto-descobrimento. Enquanto  empreende a tarefa  do trabalho  para a  aquisição  dos valores  de  consumo isola-­se,  sem contribuir eficazmente para o bem­-estar do grupo social, no qual se movimenta.  

Os  seus  empreendimentos  levam-­no  a  uma  negação  da  comunidade  a  benefício pessoal, esperando recuperar esta dívida, quando os favores da fortuna e  da projeção lhe facultarem o desfrutar do prazer, da aposentadoria regalada. As suas  preocupações giram em torno do imediatismo, da ambição do triunfo sem resposta  de paz interior. A sociedade, por sua vez, ignora-­o, pressentindo nele um usurpador. 

De  alguma forma  é  levado  ao  competitivismo  individualista,  criando  um  clima  desagradável.  A  sua ascensão  será  possível  mediante  a  queda  de  outrem,  mesmo  que  o  não  deseje.  Torna­se,  assim, um adversário  natural.  O seu  produto  vende  na  razão  direta  em  que  aumentam  as  necessidades  dos outros  e  a  sua  prosperidade se erige como conseqüência da contribuição dos demais. Não cessam  as suas atividades na luta pelo ganha-­pão.  

Naturalmente, esse comportamento passa a exigir, depois de algum tempo,  que o indivíduo se associe a outro, formando uma empresa maior ou um clube de recreação, ignorando-­se interiormente e buscando, sem cessar, as aquisições de fora.  A ansiedade, o medo, a solidão íntima tornam­-se-­lhe habituais, uma de cada vez, ou  simultaneamente, desgastando­-o, amargurando­-o.  

O homem,  pela  necessidade  de  afirmar-­se  no  empreendimento  a  que  se  vincula, busca atingir o máximo, aspira por ser o número um e logra-­o, às vezes.  

A  marcha  inexorável  do  tempo,  porém,  diminui-­lhe  as resistências,  solapando-­lhe a competitividade, sendo substituído pelos novos competidores que o  deixam  à margem.  Mesmo  que  ele  haja  alcançado o máximo,  os  sócios  atuais  consideram­-no ultrapassado, prejudicial à Organização por falta de atualidade e os filhos  concedem-­lhe  postos  honrosos, recreações douradas,  lucros,  desde  que  não interfira nos negócios... Ocorre­-lhe a inevitável descoberta sobre a sua inutilidade, isto  produzindo-­lhe  choque emocional,  angústia  ou  agressividade sistemática,  em  mecanismo de defesa do que supõe pertencer-­lhe.  

O  homem,  realmente  não  se  conhece.  Identifica  e  persegue metas  exteriores.  

Camufla os sentimentos enquanto se esfalfa na realização pessoal, sem uma correspondente identificação íntima.  

A  experiência,  em qualquer  caso,  é  um  meio  propiciador  para  o autoconhecimento,  em razão das descobertas  que enseja  àquele  que  tem  a mente aberta  aos valores morais, internos. Ela demonstra a pouca significação de muitas  conquistas materiais,  econômicas  e sociais diante  da inexorabilidade  da morte,  da injunção das enfermidades,  especialmente  as  de  natureza irreversível,  dos  golpes  afetivos, por  defrontar-­se desestruturado,  sem  as  resistências  necessárias  para suportar as vicissitudes que a todos surpreendem. 

O homem  possui  admiráveis  recursos  interiores  não explorados,  que  lhe  dormem em potencial, aguardando o desenvolvimento. A sua conquista faculta­-lhe o auto-descobrimento,  o  encontro com  a sua realidade legítima  e,  por  efeito,  com  as  suas  aspirações reais,  aquelas  que se  convertem em suporte de resistência  para  a  vida, equipando-­o com os bens inesgotáveis do espírito.  

Necessário recorrer a alguns valores éticos morais, a coragem para decifrar­-se,  a confiança  no  êxito,  o amor  como manifestação elevada,  a  verdade  que  está  acima  dos  caprichos seitistas  e  grupais,  que  o pode acalmar  sem  o acomodar, tranquilizá-­lo sem o desmotivar para a continuação das buscas. 

Conseguida a primeira meta, uma nova se lhe apresenta, e continuamente,  por considerar­-se o infinito da sabedoria e da Vida.  

É do agrado de algumas personalidades neuróticas, fugirem de si mesmas, ignorarem­-se  ou  não saberem dos acontecimentos,  a  fim  de  não  sofrerem.  Ledo engano! A fuga aturde, a ignorância amedronta, o desconhecido produz ansiedade,  sendo, todos estes, estados de sofrimento.  

O parto produz dor, e recompensa com bem-­estar, ensejando vida.  

O auto-descobrimento é também um processo de parto, impondo a coragem  para o acontecimento que libera. 

Examinar  as  possibilidades  com decisão  e enfrentá-­las  sem  mecanismos  desculpistas ou de escape, constitui o passo inicial.  

Édipo, na tragédia de Sófocles, deseja conhecer a própria origem. Levado mais pela curiosidade do que pela coragem, ao ser informado que era filho do rei  Laio, a quem matara, casando­-se com Jocasta, sua mãe, desequilibra-­se e arranca os  olhos. Cegando-­se, foge à sua realidade, ao auto-descobrimento e perde­-se, incapaz  de superar a dura verdade.  

A  verdade  é  o  encontro  com  o fato que  deve  ser digerido,  de modo  a retificar  o processo,  quando danoso,  ou  prosseguir vitalizando-­o,  para  que  se  o amplie a benefício geral. 

Ignorando-­se, o homem se mantém inseguro. Evitando aceitar a sua origem tomba no fracasso, na desdita. 

Ademais,  a  origem  do  homem  é  de  procedência  divina.  Remontar  aos  pródromos da sua razão com serena decisão de descobrir­-se, deve ser-­lhe um fator  de  estímulo  ao  tentame.  O  reforço  de  coragem para  levantar­-se,  quando  caía,  o  ânimo  de  prosseguir, se surgem  conspirações  emocionais  que  o intimidam, fazem  parte de seu programa de enriquecimento interior.  

O  auto­-encontro  enseja satisfações estimuladoras, saudáveis. Esse  esforço  deve  ser  acompanhado  pela inevitável  confiança  no  êxito, porquanto  é  ambição  natural do ser pensante investir para ganhar, esforçar­-se para colher resultados bons. 

Certamente, não  vem  prematuramente  o triunfo, nem se torna necessário.  Há ocasião para semear, empreender, e momento outro para colher, ter resposta. O que se não deve temer é o atraso dos resultados, perder o estímulo porque os frutos  não se apresentam ou ainda não trazem o agradável sabor esperado. 

Repetir o tentame com a lógica dos bons efeitos, conservar o entusiasmo,  são  meios  eficazes  para identificar  as  próprias  possibilidades,  sempre  maiores  quanto mais aplicadas.  

Ao  lado  do recurso  da confiança  no  êxito,  aprofunda­-se  o sentimento  de  amor, de interesse humano, de participação no grupo social, com resultado em forma  de respeito por si mesmo, de afeição à própria pessoa como ser importante que é no  conjunto geral.  

Discute-­se muito, na atualidade, a questão das conquistas éticas e morais, intentando-­se explicar que a falta de sentimento e de amor responde pelos desatinos  que aturdem a sociedade.  

Têm razão,  aqueles  que pensam  desta  forma.  Todavia,  parece­nos que  a  causa mais profunda do problema se encontra na dificuldade do discernimento em torno dos valores humanos, O questionamento a respeito do que é essencial e do que  é  secundário  inverteu  a  ordem  das aspirações, confundindo  os sentimentos  e transformando  a  busca  das  sensações  em  realização fundamental, relegando-­se  a  plano inferior as expressões da emoção elevada, na qual, o belo, o ético, o nobre se expressam em forma de amor, que não embrutece nem violenta.  

A experiência do amor é essencial ao auto-descobrimento, pois que, somente através dele se rompem as couraças do ego, do primitivismo, predominante ainda em  a natureza humana. O amor se expande como força co­-criadora, estimulando todas as expressões e formas de vida. Possuidor de vitalidade, multiplica-­a naquele que o desenvolve quanto na pessoa a quem se dirige. Energia viva, pulsante, é o próprio  hálito da Vida a sustentá­-la. A sua aquisição exige um bem direcionado esforço que  deflui de uma ação mental equilibrada. 

Na  incessante  busca  da unidade,  ora  pela  ciência  que  tenta  chegar  à Causalidade Universal,  ou através  do  mergulho  no insondável  do  ser,  podemos  afirmar  que  os equipamentos  que proporcionaram  a  desintegração  do átomo,  complexos e sofisticados, foram conseguidos com menor esforço, em nosso ponto  de vista, do que a força interior necessária para a implosão do ego, em que busque a  plenitude.  

A  formidanda  energia detectada  no  átomo,  propiciadora do  progresso,  serviu,  no começo,  para  a guerra,  e  ainda constitui ameaça  destruidora,  porque aqueles que a penetraram, não realizaram uma equivalente aquisição no sentimento,  no amor, que os levaria a pensar mais na humanidade do que em si e nos seus.  

Amar torna­-se um hábito edificante, que leva à renúncia sem frustração, ao respeito sem submissão humilhante,  à compreensão  dinâmica,  por revelar­-se uma  experiência  de  alta magnitude, sempre  melhor para  quem o exterioriza  e  dele se  nutre.  

Na realização do cometimento afetivo surge o desafio da verdade, que é a meta seguinte.  

Ninguém deterá a verdade, nem a terá absoluta. Não nos referimos somente  à  verdade dos fatos  que  a ciência comprova, mas  àquela  que  os  torne verazes: verdade como veracidade, que depende do grau de amadurecimento da pessoa e da  sua coragem para assumi­-la. 

Quando se trata de uma verdade científica, ela depende, para ser aceita, da honestidade de quem a apresenta, dos seus valores morais. Indispensável, para tanto,  a probidade de  quem  a revela, não sendo apenas fruto  da cultura  ou do intelecto,  porém, de uma  alta sensibilidade  para percebê-­la. Defronta-mo-­la  em  pessoas  humildes culturalmente,  mas probas, escasseando  em  indivíduos letrados, porém hábeis na arte de sofismar.  

A verdade  faculta  ao homem  o valor  de  recomeçar inúmeras  vezes a experiência equivocada até acertá­-la.  

Erra­-se  tanto  por ignorância como  pela  rebeldia.  Na ignorância, mesmo  assim, há sempre uma intuição do que é verdadeiro, face à presença íntima de Deus  no homem.  A rebeldia  gera  a má fé,  o que  levou Nietzsche a afirmar  com certo  azedume: “Errar é covardia!”, face à opção cômoda de quem elege o agradável do momento, sem o esforço da coragem para lutar pelo que é certo e verdadeiro.  

A aquisição da verdade amadurece o homem, que a elege e habitua­-se à sua força libertadora, pois que, somente há liberdade real, se esta decorre daquela que o torna  humilde  e forte, aberto  a  novas conquistas e  a  níveis  superiores  de  entendimento.

<http://www.luzespirita.org.br/leitura/pdf/l49.pdf>

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Reunião mensal da UDE 1

Prezado (a) Amigo (a) Presidente ou Representante de Casa Espírita vinculada à UDE 1

Boa noite

Estamos encaminhando-lhe, em anexo, a carta de convocação para a reunião mensal da UDE 1, a qual será realizada,excepcionalmente, no quarto sábado do mês, dia 22 de fevereiro, ao invés do 3º  sábado, como tem sido de praxe, em função do seminário de Liszt Rangel, que terá lugar no dia 15 de fevereiro, das 14 h 00 às 18 h 00, na FEEC, sobre o tema Tramas da Fascinação, por decisão do Presidente da UDE 1, em atenção à solicitação que lhe foi feita, nesse sentido, devido ao grande interesse suscitado pelo seminário. Tendo em vista que estava prevista a ida à reunião de um representante do GEPE, Sr. Weyne Vasconcelos, Diretor de Eventos e de Comunicação, daquele Grupo Espírita, para fazer entrega de material de divulgação, referente ao evento 16º Evoluir, que será realizado no período de carnaval, no GEPE Água Fria, conforme cartaz abaixo, com o apoio da FEEC, participação da UDE 1 (ver logomarca no cartaz) e realização do GEPE, face o adiamento da reunião, o Presidente da UDE 1 sugere ao GEPE que faça a entrega do referido material, na FEEC, durante o seminário de Liszt Rangel, no dia 15 de fevereiro, pelo que solicita às Casas Espíritas que se façam representar, nesse seminário, para recebê-lo (material) e colaborar com o GEPE na divulgação do evento.

Fraternalmente,

Orlando Mota Maia
Secretário da UDE 1       


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Mal e O Remédio


SANTO AGOSTINHO
Paris, 1863

19 – Vossa terra é por acaso um lugar de alegrias, um paraíso de delicias? A voz do profeta não soa ainda aos vossos ouvidos? Não clamou ele que haveria choro e ranger de dentes para os que nascessem neste vale de dores? Vós que nele viestes viver, esperai portanto lágrimas ardentes e penas amargas, e quanto mais agudas e profundas forem as vossas dores, voltai os olhos ao céu e bendizei ao Senhor, por vos ter querido provar! Oh, homens! Não reconhecereis o poder de vosso Senhor, senão quando ele curar as chagas de vosso corpo e encher os vossos dias de beatitude e de alegria? Não reconhecereis o seu amor, senão quando ele adornar vosso corpo com todas as glórias, e lhe der o seu brilho e o seu alvor? Imitai aquele que vos foi dado para exemplo. Chegado ao último degrau da abjeção e da miséria, estendido sobre um monturo, ele clamou a Deus: “Senhor! Conheci todas as alegrias da opulência, e vós me reduzistes a mais profunda miséria! Graças, graças, meu Deus, por tendes querido provar o vosso servo”! Até quando os vossos olhos só alcançarão os horizontes marcados pela morte? Quando, enfim, vossa alma quererá lançar-se além dos limites do túmulo? Mas ainda que tivésseis de sofrer uma vida inteira, que seria isso, ao lado da eternidade de glória reservada àquele que houver suportado a prova com fé, amor e resignação? Procurai, pois, a consolação para os vossos males no futuro que Deus vos prepara, e vós, os que mais sofreis, julgar-vos-eis os bem-aventurados da Terra.

Com desencarnados, quando vagáveis no espaço, escolhestes as vossas prova, porque vos consideráveis bastantes fortes para suportá-la. Por que murmurais agora? Vós que pedistes a fortuna e a glória, o fizestes para sustentar a luta com a tentação e vencê-la. Vós, que pedistes para lutar de alma e corpo contra o mal moral e físico; sabíeis que quanto mais forte fosse a prova, mais gloriosa seria a vitória, e que, se saísseis triunfantes, mesmo que vossa carne fosse lançada sobre um monturo, na ocasião da morte, ela deixaria escapar uma alma esplendente de alvura, purificada pelo batismo da expiação e do sofrimento.

Que remédios, pois, poderíamos dar aos que foram atingidos por obsessões cruéis e males pungentes? Um só é infalível: a fé, voltar os olhos para o céu. Se, no auge de vossos mais cruéis sofrimentos, cantardes em louvor ao Senhor, o anjo de vossa guarda vos mostrará o símbolo da salvação e o lugar que devereis ocupar um dia. A fé é o remédio certo para o sofrimento. Ela aponta sempre os horizontes do infinito, ante os quais se esvaem os poucos dias de sombras do presente. Não mais nos pergunteis, portanto, qual o remédio que curará tal úlcera ou tal chaga, esta tentação ou aquela prova. Lembrai-vos de que aquele que crê se fortalece com o remédio da fé, e aquele que duvida um segundo da sua eficácia é punido, na mesma hora, porque sente imediatamente as angústias pungentes da aflição.

O Senhor pôs o seu selo em todos os que crêem nele. Cristo vos disse que a fé transporta montanhas. Eu vos digo que aquele que sofre e que tiver a fé como apoio, será colocado sob a sua proteção e não sofrerá mais. Os momentos mais dolorosos serão para ele como as primeiras notas de alegria da eternidade. Sua alma se desprenderá de tal maneira de seu corpo, que, enquanto este se torcer em convulsões, ela pairará nas regiões celestes, cantando com os anjos os hinos de reconhecimento e de glória ao Senhor.

Felizes os que sofrem e choram! Que suas almas se alegrem, porque serão atendidas por Deus.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O Homem Integral: SEGUNDA PARTE - ESTRANHOS RUMOS, SEGUROS ROTEIROS: 10. Mitos

A  história  do  homem  é  a  conseqüência  dos  mitos  e crendices  que  ele  elaborou para a sobrevivência, para o seu pensamento ético.  
Medos e ansiedades, aspirações e sofrimentos estereotipam-­se em fórmulas  e  formas  mitológicas  que lhe  refletem  o  estágio  evolutivo,  em  alguns  deles perfeitamente consentâneos com as suas conquistas contemporâneas.  
As  concepções  indianas  lendárias,  as  tradições templárias  dos  povos  orientais,  recuperam  as  suas formulações  nas  tragédias  gregas,  excelentes repositórios dos  conflitos  humanos,  que  a  mitologia  expõe,  ora com poesia,  em  momentos outros com formas grotescas de dramas cruéis.  
A vingança de Zeus contra Prometeu, condenado à punição eterna, atado a  um rochedo, no qual, um abutre lhe devorava o fígado durante o dia e este se refazia  à noite para que o suplício jamais cessasse, humaniza o deus vingador e despeitado,  porque  o ser,  que  ele  criara, ao descobrir  o fogo,  adquirira  o  poder  de iluminar  a  Terra, tornando-­se  uma  quase  divindade.  O  ciúme  e  a  paixão  humana  cegaram  o  deus, que se enfureceu.  
O criador desejava que o seu gerado fosse sempre um inocente, ignorante,  dependente, sem consciência ética, sem discernimento, a fim de que pudesse, o todo­  poderoso, nele comprazer­-se.  
A  desobediência,  ingênua  e  curiosa  do  ser  criado,  trouxe-­lhe  o  ignóbil, inconcebível e imerecido castigo, caracterizando a falência do seu gerador.  
Com pequenas variações vemos a mesma representação em outros povos e  doutrinas  de  conteúdo infantil,  que se  não  dão  conta  ou  não  querem  encontrar  o  significado real da vida, a sua representação profunda, castigando aqueles que lhe  desobedecem e preferem a idade adulta da razão, abandonando a infância.  
O pensamento cartesiano, com o seu “senso prático”, deu-­lhes o primeiro  golpe e lentamente decretou a morte dos mitos e das crenças.  
Se,  de  um  lado,  favoreceu  ao  homem  que  abandonasse  a  tradição dos feiticeiros,  dos  bichos ­papões, das  cegonhas  trazendo  bebês,  eliminou  também  as fadas madrinhas, os gênios bons, os anjos­ da ­guarda. E quando já se acreditava na  morte  dos  mitos,  considerando-­se  as  mentes  adultas  liberadas deles,  eis  que  a tecnologia  e  a  mídia  criaram  outros  hodiernos:  os  super-­homens,  os  He-­man,  os invasores  marcianos,  os  homens  invisíveis,  gerando  personagens  consideradas  extraordinárias para o combate contra o mal sem trégua em nome do bem incessante.  
Concomitantemente,  a  robótica  abriu  espaços  para  que  a  imaginação  ampliasse  o  campo  mitológico e  as  máquinas  eletrônicas,  na  condição  de simuladores, produzissem novos heróis e ases vencedores no contínuo campeonato  das competições humanas.  
O  exacerbar  do  entusiasmo  tornou  a  ficção  uma  realidade  próxima,  permitindo que os jovens modernos confundam as suas possibilidades limitadas com  as remotas conquistas da fantasia. 
Imitam os heróis das histórias em quadrinhos, tomam posturas semelhantes  aos  líderes  de  bilheteria,  no teatro,  no rádio,  no  cinema,  na  televisão  e  chegam  a  crer­-se  imortais  físicos,  corpos  indestrutíveis ou recuperáveis  pelos  engenhos  da  biônica, igualmente fabricantes de seres imbatíveis.  
Retorna-­se, de certo modo, ao período em que os deuses desciam à Terra,  humanizando-­se,  e  os  magos com  habilidades  místicas  resolviam  quaisquer  dificuldades,  dando  margem  a  uma  cultura  superficial  e vandálica  de  funestos resultados éticos.  
A  violência,  que  irrompe,  desastrosa,  arma  os  novos  Rambos  com  equipamentos de vingança em nome da justiça, enfrentando as forças do mal que se  apresentam numa sociedade injusta, promovendo lutas lamentáveis, sem controle.  
As experiências pessoais, resultado das conquistas éticas, cedem lugar aos  modelos  fabricados  pela imaginação  fértil,  que  descamba  para  o  grotesco, fomentado o pavor, ironizando os valores dignos e desprezando as Instituições.  
A  falência  do  individualismo  industrial,  a  decadência  do  coletivismo socialista deram lugar a novas formas de afirmação, nas quais o inconsciente projeta  os seus mitos e assenhoreia-­se da realidade, confundindo-­a com a ilusão.  
As virtudes apresentam­-se fora de moda e a felicidade surge na condição de  desprezo  pelo  aceito  e considerado,  instituindo  a  extravagância — novo  mito —  como modelo de auto­rrealização, desde que choque e agrida o convívio social.  
O  perdido “jardim  do  Éden”  da  mitologia  bíblica  reaparece  na grande  satisfação do “fruto do pecado”, transformando a punição em prazer e desafiando,  mediante  a contínua  desobediência,  o Implacável  que lhe  castigou  o  despertar  da  consciência.  
Na sucessão de desmandos propiciados pelos mitos contemporâneos, toma  corpo  a  saudade  da  paz  — inocência representativa  do  bem  —  e  a experiência,  demonstrando a inevitabilidade dos fenômenos biológicos do desgaste do  cansaço,  do envelhecimento e da morte, propicia uma revisão cultural com amadurecimento das  vivências,  induzindo  o ser  a  uma  nova  busca  da  escala  de  valores realmente representativos das aspirações nobres da vida.  
A  solidão  e  a  ansiedade  que  os  mitos  mascaram,  mas não  equacionam, rompem a couraça de indiferença do homem pela sua profunda identidade, levando­  o a um amadurecimento em que o grupo social dele necessita para sobreviver, tanto  quanto  lhe  é importante, favorecendo­-o  com um intercâmbio de  emoções  e  ações  plenificadoras.  
Os mitos, logo mais,  cederão lugar a realidades que já se apresentam, no início, como símbolos de uma nova conquista desafiadora e que se incorporarão, a  pouco e pouco, ao cotidiano, ensinando disciplina, controle, respeito por si mesmo,  aos  outros,  às  autoridades,  que  no homem  se  fazem  indispensáveis  para  a  feliz  coexistência pacífica.

<http://www.luzespirita.org.br/leitura/pdf/l49.pdf>

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O Evangelho Segundo o Espiritismo: CAPÍTULO V –– BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS/Justiça das Aflições


1 – Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. Bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. (Mateus, V: 5, 6 e 10).

2 – Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque rireis. (Lucas, VI: 20 e 21)

Mas ai de vós, ricos, porque tendes no fundo a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis. (Lucas, VI: 24 e 25). 

JUSTIÇA DAS AFLIÇÕES

3 – As compensações que Jesus promete aos aflitos da Terra só podem realizar-se na vida futura. Sem a certeza do porvir, essas máximas seriam um contra-senso, ou mais ainda, seriam um engodo. Mesmo com essa certeza, compreende-se dificilmente a utilidade de sofrer para ser feliz. Diz-se que é para haver mais mérito. Mas então se pergunta por que uns sofrem mais do que outros; por que uns nascem na miséria e outros na opulência, sem nada terem feito para justificar essa posição; por que para uns nada dá certo, enquanto para outros tudo parece sorrir? Mas o que ainda menos se compreende é ver os bens e os males tão desigualmente distribuídos entre o vício e a virtude; ver homens virtuosos sofrer ao lado de malvados que prosperam. A fé no futuro pode consolar e proporcionar paciência, mas não explica essas anomalias, que parecem desmentir a justiça de Deus.

Entretanto, desde que se admite a existência de Deus, não é possível concebê-lo sem suas perfeições. Ele deve ser todo poderoso, todo justiça, todo bondade, pois sem isso não seria Deus. E se Deus é soberanamente justo e bom, não pode agir por capricho ou com parcialidade. As vicissitudes da vida têm, pois, uma causa, e como Deus é justo, essa causa deve ser justa. Eis do que todos devem compenetrar-se. Deus encaminhou os homens na compreensão dessa causa pelos ensinos de Jesus, e hoje, considerando-os suficientemente maduros para compreendê-la, revela-a por completo através do Espiritismo, ou seja, pela voz dos Espíritos.

Ouça "Justiça dos Aflitos": http://luzdoespiritismo.com/wp-content/uploads/2013/06/cap05-a01-bem-aventurados-os-aflitos.mp3

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Homem Integral: SEGUNDA PARTE - ESTRANHOS RUMOS, SEGUROS ROTEIROS: 9. Ódio e Suicídio


Herdeiro de si mesmo, carregando, no inconsciente, as experiências transatas, o homem não foge aos atavismos que o jungem ao primitivismo, embora as claridades arrebatadoras do futuro chamando-­o para as grandes conquistas. 

Liberar-­se do forte cipoal das paixões animalizantes para os logros da razão é o grande desafio que tem pela frente. Onde quer que vá, encontra-­se consigo mesmo. A sua evolução sócio-antropológica é a história das contínuas lutas, em que o artista — o Espírito — arranca do bloco grotesco — a matéria — as expressões de beleza e grandiosidade que lhe dormem imanentes. 

Os mitos de todos os povos, na história das artes, das filosofias e das religiões, apresentam a luta contínua do ser libertando-­se da argamassa celular, arrebentando algemas para firmar­-se na liberdade que passa a usar, agressivamente, no começo, até converter-­se em um estado de consciência ética plenificador, carregado de paz. Em cada mito do passado surge o homem em luta contra forças soberanas que o punem, o esmagam, o dominam. Gerado o conceito da desobediência, o reflexo da punição assoma dominador, reduzindo o calceta a uma posição ínfima, contra a qual não se pode levantar, sequer justificar a fragilidade. 

Essa incapacidade de enfrentar o imponderável — as forças desgovernadas e prepotentes — mais tarde se apresenta camuflada em forma de rebelião inconsciente contra a existência física, contra a vida em si mesma. Obrigado mais a temer esses opressores, do que a os amar, compelido a negociar a felicidade mediante oferendas e cultos, extravagantes ou não, sente­-se coibido na sua liberdade de ser, então rebelando-­se e passando a uma atitude formal em prejuízo da real, a um comportamento social e religioso conveniente ao invés de ideal, vivendo fenômenos neuróticos que o deprimem ou o exaltam, como efeitos naturais de sua rebelião íntima. 

Ao mesmo tempo, procurando deter os instintos agressivos nele jacentes, sem os saber canalizar, sofre reações psicológicas que lhe perturbam o sistema emocional. O ressentimento — que é uma manifestação da impotência agressiva não exteriorizada — converte-­se em travo de amargura, a tornar insuportável a convivência com aqueles contra os quais se volta. 

Antegozando o desforço — que é a realização íntima da fraqueza, da covardia moral — dá guarida ao ódio que o combure, tornando a sua existência como a do outro em um verdadeiro inferno. 

O ódio é o filho predileto da selvageria que permanece em a natureza humana. Irracional, ele trabalha pela destruição de seu oponente, real ou imaginário, não cessando, mesmo após a derrota daquele.

Quando não pode descarregar as energias em descontrole contra o opositor, volta­-se contra si mesmo articulando mecanismos de autodestruição, graças aos quais se vinga da sociedade que nele vige. 

Os danos que o ódio proporciona ao psiquismo, por destrambelhar a delicada maquinaria que exterioriza o pensamento e mantém a harmonia do ser, tornam­-se de difícil catalogação. 

Simultaneamente, advêm reações orgânicas que se refletem nas funções hepáticas, digestivas, circulatórias, dando origem a futuros processos cancerígenos, cardíacos, cerebrais... 

A irradiação do ódio é portadora de carga destrutiva que, não raro, corrói as engrenagens do emissor como alcança aquele contra quem vai direcionada, caso este sintonize em faixa de equivalência vibratória. 

Lixo do inconsciente, o ódio extravasa todo o conteúdo de paixões mesquinhas, representativas do primarismo evolutivo e cultural. 

Algumas escolas, na área da psicologia, preconizam como terapia, a liberação da agressividade, do ódio, dos recalques e castrações, mediante a permissão do vocabulário chulo, das diatribes nas sessões de grupo, das acusações recíprocas, pretendendo o enfraquecimento das tensões, ao mesmo tempo a conquista da auto-­realização, da segurança pessoal. 

Sem discutirmos a validade ou não da experiência, o homem é pássaro cativo fadado a grandes vôos; ser equipado com recursos superiores, que viaja do instinto para a razão, desta para a intuição e, por fim, para a sua fatalidade plena, que é a perfeição. 

Uma psicologia baseada em terapêutica de agressão e libertação de instintos, evitando as pressões que coarctam os anseios humanos, certamente atinge os primeiros propósitos, sem erguer o paciente às cumeadas da realização interior, da identificação e vivência dos valores de alta monta, que dão cor, objetivo e paz à existência. 

Assumir a inferioridade, o desmando, a alucinação é extravasá-­los, nunca sanar o mal, libertar-­se dele por desnecessário. 

Se não é recomendável para as referidas escolas, a repressão, pelos males que proporciona, menos será liberar alguns, aos outros agredindo, graças aos falsos direitos que tais pacientes requeiram para si, arremetendo contra os direitos alheios. 

A sociedade, considerada como castradora, marcha para terapias que canalizem de forma positiva as forças humanas, suavizando as pressões, eliminando as tensões através de programas de solidariedade, recreio e serviços compatíveis com a clientela que a constitui. 

O ódio pressiona o homem que se frustra, levando-­o ao suicídio. Tem origens remotas e próximas. 

Nas patologias depressivas, há muito fenômeno de ódio embutido no enfermo sem que ele se dê conta.A indiferença pela vida, o temor de enfrentar situações novas, o pessimismo disfarçam mágoas, ressentimentos, iras não digeridas, ódios que ressumam como desgosto de viver e anseio por interromper o ciclo existencial. 

Falhando a terapia profunda de soerguimento do enfermo, o suicídio é o próximo passo, seja através da negação de viver ou do gesto covarde de encerrar a atividade física. Todos os indivíduos experimentam limites de alguma procedência. Os extrovertidos conquistadores ocultam, às vezes, largos lances de timidez, solidão e desconfiança, que têm dificuldade em superar. 

Suas reuniões ruidosas são mais mecanismos de fuga do que recursos de espairecimento e lazer. Os alcoólicos que usam, as músicas ensurdecedoras que os aturdem, encarregam­se de mantê­los mais solitários na confusão do que solidários uns com os outros. As gargalhadas, que são esgares festivos, substituem os sorrisos de bem­estar, de satisfação e humor, levando­os de um para outro lugar nenhum, embora se movimentem por cidades, clubes e reuniões diversos. O ser humano deve ter a capacidade de discernimento para eleger os valores compatíveis com as necessidades reais que lhe são inerentes. 

Descobrir a sua realidade e crescer dentro dela, aumentando a capacidade de ser saudável, eis a função da inteligência individual e coletiva, posta a benefício da vida. 

As transformações propõem incertezas, que devem ser enfrentadas naturalmente, como as oposições e os adversários encarados na condição de ocorrências normais do processo de crescimento, sem ressentimentos, nem ódios ou fugas para o suicídio. 

O homem que progride cada dia, ascende, não sendo atingido pelas famas dos problematizados que o não podem acompanhar, por enquanto, no processo de crescimento. 

Alcançado o acume desejado, este indivíduo está em condições de descer sem diminuir-­se, a fim de erguer aquele que permanece na retaguarda. 

Ora, para alcançar-­se qualquer meta e, em especial, a da paz, torna-­se necessário um planejamento, que deflui da autoconsciência, da consciência ética, da consciência do conhecimento e do amor.

O planejamento precede a ação e desempenha papel fundamental na vida do homem. 

Somente uma atitude saudável e uma emoção equilibrada, sem vestígios de ódio, desejo de desforço, podem planejar para o bem, o êxito, a felicidade.

<http://www.luzespirita.org.br/leitura/pdf/l49.pdf>

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O Livro dos Espíritos: INTRODUÇÃOX – A Linguagem dos Espíritos e o Poder Diabólico

Entre as objeções, algumas são mais ponderáveis pelo menos na aparência, porque baseiam-se na observação de pessoas sérias.

Uma dessas observações refere-se à linguagem de certos Espíritos, que não parece digna da elevação atribuída aos seres sobrenaturais. Se quisermos reportar-nos ao resumo da doutrina atrás apresentado, veremos que os próprios Espíritos ensinam que não são iguais em conhecimentos nem em qualidades morais, e que não se deve tomar ao pé da letra tudo o que dizem. Cabe às pessoas sensatas separar o bom do mau. Seguramente, os que deduzem desse fato que tratamos com seres malfazejos, cuja única intenção é a de nos mistificarem, não conhecem as comunicações dadas nas reuniões em que se manifestam Espíritos superiores, pois de outra maneira não pensariam assim. E pena que o acaso tenha servido tão mal a essas pessoas, não lhes mostrando senão o lado mau do mundo espírita, pois não queremos supor que uma tendência simpática atraia para elas os maus Espíritos em lugar dos bons, os Espíritos mentirosos ou esses cuja linguagem é de revoltante grosseria. Poderíamos concluir, quando muito, que a solidez dos seus princípios não seja bastante forte para preservá-las do mal, e que, achando um certo prazer em lhe satisfazer a curiosidade, os maus Espíritos, por seu lado, se aproveitam disso para se introduzir entre elas, enquanto os bons se afastam.

Julgar a questão dos Espíritos por esses fatos seria tão pouco lógico como julgar o caráter de um povo pelo que se diz e se faz numa reunião de alguns estabanados ou gente de má fama, a que não comparecem os sábios nem as pessoas sensatas. Os que assim julgam estão na situação de um estrangeiro que, chegando a uma grande capital pelo seu pior arrabalde, julgasse toda a população da cidade pêlos costumes e a linguagem desse bairro mesquinho. No mundo dos Espíritos, há também desníveis sociais; se aquelas pessoas quisessem estudar as relações entre os Espíritos elevados, ficariam convencidas de que a cidade celeste não contém apenas a escória popular. Mas, perguntam elas, os Espíritos elevados chegam até nós? Responderemos: não permaneçais no subúrbio; vede, observai e julgai; os fatos aí estão para todos. A menos que a essas pessoas se apliquem estas palavras de Jesus:“Têm olhos e não vêem; têm ouvidos e não ouvem”.

Uma variante desta opinião consiste em não ver nas comunicações espíritas e em todos os fatos materiais a que elas dão lugar senão a intervenção de um poder diabólico, novo Proteu que revestiria todas as formas para melhor nos iludir. Não a consideramos suscetível de um exame sério e por isso não nos deteremos no caso: ela já está refutada pelo que dissemos atrás. Acrescentaremos apenas que, se fosse assim, teríamos de convir que o diabo é às vezes bem inteligente, bastante criterioso e sobretudo muito moral, ou então que existem bons diabos.

Como acreditar, de fato, que Deus não permita senão ao Espírito do mal manifestar-se para nos perder, sem dar-nos por contrapeso os conselhos dos bons Espíritos? Se ele não o pode, isto é uma impotência; se ele o pode e não faz, isso é incompatível com sua bondade; e uma e outra suposição seriam blasfêmia. Acentuemos que admitir a comunicação dos maus Espíritos é reconhecer o princípio das manifestações. Ora, desde que estas existem, será com a permissão de Deus. Como acreditar, sem cometer impiedade, que ele só permita o mal, com exclusão do bem? Uma doutrina assim é contrária ao bom senso e às mais simples noções da religião.