segunda-feira, 10 de junho de 2019

Sobre necessidades



Abraham Maslow (1908-1970) foi um psicólogo norte-americano, conhecido pela Teoria da Hierarquia das Necessidades Humanas ou a Pirâmide de Maslow. Nasceu no Brooklyn, Estados Unidos, no dia 01 de abril de 1908 e morreu em 1970. Descendente de russos e judeus viveu uma infância bastante infeliz e miserável e, para fugir da situação, Maslow refugiava-se em bibliotecas. Estudou Direito no City College of New York (CCNY), mas interessou-se pela psicologia, curso que faria mais tarde na Universidade de Wisconsin, onde também fez mestrado e doutorado. Estudou diversas correntes da psicologia como a psicanálise, Gestalt e a humanista.

Dentre vários trabalhos que se dedicou na área da psicologia, a sua teoria mais famosa é a da "hierarquia das necessidades", segundo a qual, as necessidades fisiológicas estavam na base de outras: segurança, afetividade, estima e realização pessoal. Nessa ordem, segundo ele, uma necessidade só poderia ser satisfeita se a anterior fosse concretizada.

Nessa feita, a base da pirâmide contém as necessidades mais básicas do indivíduo, ascendendo para atingir, no topo da pirâmide, as suas necessidades mais transcendentais, ligadas à cultura, educação, espiritualidade... A Pirâmide possui cinco camadas. A primeira, a que sustenta todas as demais, é a camada das necessidades fisiológicas, como a necessidade de sexo, repouso, alimentação, hidratação... tudo o que o organismo físico precisa minimamente para continuar vivo, para sobreviver; a segunda camada é a da segurança, ou seja, a que representa a necessidade de incolumidade física e psicológica, saúde ambiental, liberdade de locomoção e de trocas comerciais...; a terceira camada está associada às relações sociais do indivíduo: família, amigos, grupos sociais e comunidade, ao ser socialmente integrado; a quarta camada diz respeito à estima, à necessidade de ser aprovado e reconhecido por sua unicidade perante os seres que convive; a última camada, por fim, é a necessidade de evolução, de desenvolvimento consciencial, é a necessidade de cognição e expressão artística, intelectual, espiritual, em outras palavras é a necessidade de autorealização.

Consiste isso em um lastro lógico bem pertinente sobre o qual várias questões essenciais se sobrepõem e que ganham um caminho para serem respondidas com eficiência. Em especial, isso assume elevada utilidade em meio à sociedade em que estamos inseridos cujos valores são traçados por gigantes corporativos em uma evidência pululante e manifesta da ambição humana de alcançar o melhor viver ao custo muitas vezes da ética e de outros valores mais nobres e responsáveis perante todos os níveis de necessidades humanas em um aspecto coletivo. Estamos falando em um consumismo exagerado e desenfreado que está a minar os recursos naturais do planeta e está a desfuncionalizar o interrelacionamento entre humanos para operar o relacionamento destes com as máquinas, com as tecnologias e inteligências artificiais. São indiscutíveis os benefícios alcançados pelo capitalismo, consumismo e tecnologia, porque representam por si o avanço da humanidade que parte da Era Paleolítica e chega na Era Tecnológica, isto é, uma era em que a sobrevivência da espécie não é mais a principal necessidade a ser atingida, apesar do descompasso dos seus avanços nos ameaçar em um caminho de autodestruição, não apaga as conquistas vividas pelo conhecimento que possibilita hoje a distribuição de água encanada por várias e largas regiões, por exemplo.

A despeito da realidade de cada um, não é difícil perceber que a natureza e seus fenômenos não nos atemorizam mais tanto como antes, pois desenvolvemos vários mecanismos de defesas ou superação das suas intempéries rotineiras. Também os relacionamentos sociais são uma realidade bastante evidente, principalmente com o processo de urbanização que cresce em curva geométrica ascendente desde a segunda metade do século XX. No entanto, a estima e a autorrealização são camadas de necessidades dentro da coletividade ampla que ainda parecem carentes de superação. O aumento do convívio nos traz novos desafios que colidem diametralmente. Hodiernamente, o acolhimento que enseja o reconhecimento amoroso e construtivo dá espaço para a competição que enseja o reconhecimento invejoso e destrutivo. Os valores ainda marcadamente materiais implicam necessidades irrefletidas, difundidas por conceitos frívolos, por vezes, até mesmo sequestradores da consciência ou hipnotizantes.

Dadas essas características, é sabido que os conflitos geram dor que implica o anseio por harmonia que só é alcançada pelo que não é descartável. Nesse prisma, tudo o que é falso se revela como tal com o passar do tempo, tornando-se inexpressivo. Assim, valores legítimos¹ se mostram como elementos e conceitos essenciais. Isso porque se revelam como aquilo que não se apaga, aquilo que gera influência ano após ano, século após século, milênio após milênio...,  aquilo que edifica, que constrói, que faz o bem com permanência... O percurso até chegar nesse patamar e se sediar nele perpassa por todas as camadas mais básicas das necessidades humanas e se funda na consciência sobre quem somos e o que realmente nos constrói, o que nos faz bem.

Se não, vejamos, na falta de qualquer circunstância essencial à sobrevivência, como o oxigênio, já não podemos mais sequer pensar, tudo fica voltado para suprir a necessidade premente de respirar! O mesmo acontece quando nos falta a sensação de segurança ou quando estamos aprisionados fisicamente numa cela, a nossa mente fica naturalmente impregnada pelo pavor. No mesmo sentido, quando ficamos isolados por uma condição externa, nos vem o sentimento de solidão e tristeza ou até mesmo a demência. A ausência de estima também nos prejudica por nos acometer sentimentos de rejeição, amargura, violência e etc. Por fim, a ausência de conhecimento e compreensão sobre o mundo e sobre quem somos, torna-nos irresponsáveis, descomedidos. Ao passo que a disposição, a paz, o pertencimento, o acolhimento e a compreensão formam o cenário para a elevação do espírito, isto é para a transcendência das menores dificuldades, para a atuação da sinergia amorosa, lúcida e plena.

Trata-se de um processo cíclico e repetitivo em que o embate de todas as sensações provocadas pelas diversas espécies de necessidades atendidas ou desatendidas vão se interagindo e se modificando chegando à libertação da consciência pelo encontro com a verdade, como Jesus nos disse, de acordo com a Bíblia em João capítulo 8, versículo 32, veja-se: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. É cediço que a ignorância nos cobre e ainda nos impede de nos livrarmos das dores do mundo. Desse modo, é o conhecimento e o autoconhecimento a chave para nos firmar no grande redemoinho de estímulos que nos sequestram as emoções individuais ainda não orquestradas por uma consciência desperta.

Nesse aspecto, é imprescindível sabermos do que gostamos e o que nos afeta positivamente. Para isso, reparemos no que estamos fazendo quando nos sentimos felizes; por que nos sentimos felizes nesses momentos; quando e por que nos sentimos orgulhosos; quem geralmente nos acompanha nos momentos em que nos sentimos bem; quais desejos nossos foram satisfeitos e que nos deixaram realizados; quais são os nossos desejos atuais e por que os desejamos; por que algo nos traz um grande significado e etc. Todas essas questões revelam quais valores nos são os mais importantes, os que, vividos, fizeram-nos ter esses bons momentos.

Maslow, portanto, foi um cientista humanista que compreendeu os vários aspectos das necessidades humanas, ajudando-nos a entender como podemos interagir melhor com os outros e com nós mesmos, criando um símbolo didático, bastante lúdico e compreensível, que pode ser usado hoje por todos para refletirem sobre o que na vida realmente importa, para evitarmos sermos assaltados por ideias que nos impõe necessidades não legítimas.


Kênia Rios de Lima
Fortaleza, 10.06.2019

"A Ciência e a Religião são as duas alavancas da inteligência humana: uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral. Tendo, no entanto, essas leis o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se. Se fossem a negação uma da outra, uma necessariamente estaria em erro e a outra com a verdade, porquanto Deus não pode pretender a destruição de sua própria obra."
(Allan Kardec – O Evangelho Segundo o Espiritismo,Capítulo I, item 8)
Nota de rodapé:
¹ Sobre o conteúdo do texto ora publicado, mais precisamente sobre o que são valores legítimos, interessante destacar um trecho do livro Os Mensageiros de André Luis por Chico Xavier, porque conversa com o assunto aqui ministrado, página 213 da 33ª edição, vejamos: "...enquanto os homens, herdeiros de Deus, cultivarem o campo inferior da vida, haverá também criações inferiores, em número bastante para a batalha sem trégua em que devem ganhar os valores legítimos da evolução". Ou seja, enquanto não ascendermos para assimilação das luzes despertadoras da consciência, nossos valores (entenda-se: o que damos importância) serão ainda ilusórios e não legítimos.